No nosso mais recente encontro, no Grupo de Reflexão sobre o Feminino, fizemos juntas uma "oficina do diário". Refletimos sobre essa experiência de autoconhecimento e fizemos um trabalho de arteterapia, onde cada uma construiu seu próprio diário. Papéis, tecidos, linhas, lantejoulas, tintas, lápis coloridos, colas, tesouras e muita criatividade!
Veja abaixo alguns registros desses momentos. Em seguida, você pode ler um texto reflexivo sobre o assunto.
“Querido diário”: um convite ao auto-encontro *
Algumas pessoas enxergam o hábito de escrever diários como algo que remete à adolescência. O famoso cadeado que tranca o diário pode ser considerado um símbolo da necessária construção de fronteiras, que vivemos nessa fase da vida. Ao pensar em diário, muitos já visualizam jovens mocinhas, que desejam guardar seus segredos amorosos entre desenhos fofos e os tais cadeados. Por tal visão condicionada, chegando à fase adulta as pessoas evitam este hábito por achá-lo infantil, bobo, próprio só para guardar “segredinhos”. Mas, na verdade, o exercício de registrar sentimentos, fatos, pensamentos só para si é um caminho belíssimo de autoconhecimento e crescimento pessoal. Todos nós precisamos de espaço para entrar em contato com as nossas emoções e o diário pode ser uma importante via de acesso.
Divido com vocês uma experiência pessoal: eu tenho meu próprio diário! No meu caso, optei por não comprar aqueles cadernos prontos para se fazer diário. Escolhi o papel que eu desejava, o material para a capa, que depois iria decorar ao meu modo, e decidi encadernar. Não foi simples! Comprei as folhas recicladas, consegui um material mais rígido como um papelão para a capa e fui encadernar. Como queria um caderno pequeno, pediria que as folhas fossem partidas ao meio. Chegando ao local onde faziam encadernação, o atendente me disse que eles não faziam o serviço de corte, mas que me emprestaria a guilhotina para que eu mesma cortasse (fiquei me perguntando: se não fazem o serviço de corte por que têm uma guilhotina?!). Aceitei, fui cortando aos poucos, pegando pequenos montes, encaixando na guilhotina, medindo à minha maneira... Como era de se esperar, minhas folhas ficaram totalmente tortas! Tive que aparar arestas, cortei, lixei e, ainda assim, ali estavam as marcas da imperfeição. Em princípio fiquei frustrada, porém depois veio a reflexão: Que ótima maneira de me encontrar com as minhas arestas internas!
Escrevendo no diário tem-se a experiência de expor os sentimentos aos próprios olhos, ver as palavras dando forma ao que se encontra confuso dentro de nós. O próprio diário forma um todo, reunindo os textos em uma só narrativa de nossa alma. O que antes eram só alguns fragmentos desconexos, aos poucos vai ganhando um sentido. Ali você entra em contato com suas incongruências, as interrogações, você pode se deparar com seu modo típico de encarar as situações. A hesitação e a coragem dançam diante de seus olhos. Sem nenhum ensaio, a trama da vida se mostra para nós. As palavras surgem como setas nos mostrando o caminho. A alma deixa-se mostrar ao lhe darmos espaço.
O desabafo permite que o calor emocional baixe e vamos conseguindo o que está além. O diário é um companheiro nessa jornada de auto-encontro, ele é o registro do que carregamos dentro do peito. Nessa tarefa temos a possibilidade de ver por outro ângulo, ler e reler a nossa história, ressignificar. Cada ato pode trazer muitas reflexões,que vão além do simples escrever sobre. Estar diante da folha em branco, o modo como encerramos ou retomamos a escrita, como nos sentimos enquanto nos vemos escrever... Tudo que surge ao longo do processo também é meio para nos conhecermos. Ali você pode encontrar espaço para traçar planos, organizar ideias, distrair-se, colocar para fora o que incomoda. Você é quem decide, seguindo o ritmo conforme o seu momento.
Resgate o "Querido diário”, reserve esse tempo e esse espaço para observar o que é importante. Só você, a caneta, o papel, os sentimentos e as palavras. Uma forma simples e, ao mesmo tempo, profunda de se escutar e de se encontrar.
* Texto de Juliana Gomes Garcia
Psicóloga, psicodramatista, aromaterapeuta, coordenadora do Espaço Revitalizar.
Idealizadora e coordenadora do Grupo de Reflexão sobre o Feminino.
Este e outros textos disponíveis em: http://julianaggarcia.blogspot.com
